O Banco Central informou que a dívida externa do Brasil passou a ser maior que as reservas internacionais, colocando o país novamente na condição de devedor externo depois de 19 anos. O total da dívida externa atingiu US$ 407,1 bilhões, enquanto as reservas somam US$ 402 bilhões, resultando em um saldo líquido positivo de US$ 5,1 bilhões.

Dívida externa supera reservas

Desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a dívida externa aumentou 27,4 %, de acordo com o balanço mais recente do Banco Central. Esse crescimento reflete, segundo analistas citados pelo Estadão, o aumento de gastos com serviços como streaming, investimentos em criptoativos e o pagamento de dívidas a credores internacionais.

Felipe Tavares, economista-chefe da Monte Bravo, destacou o impacto do novo cenário:

"Acabou o argumento retórico e técnico de ‘país credor líquido’, usado há quase duas décadas junto a agências de rating e investidores estrangeiros."

Deficit nas contas externas de agosto

O relatório de estatísticas do setor externo mostrou que, em agosto de 2026, o Brasil registrou déficit de US$ 5,1 bilhões nas contas externas, acima dos US$ 3,8 bilhões do mesmo período de 2025. No período de 12 meses encerrado em agosto, o déficit em transações correntes totalizou US$ 63 bilhões, equivalente a 2,47 % do Produto Interno Bruto (PIB).

IndicadorValor (US$ bilhões)
Déficit em contas externas (agosto)5,1
Déficit em transações correntes (12 meses)63
Representação no PIB2,47 %

Balança comercial e déficit de serviços

Em agosto, a balança comercial de bens ficou superavitária em US$ 6,6 bilhões. As exportações de bens totalizaram US$ 33,3 bilhões, alta de 12,1 % em relação ao ano anterior, enquanto as importações somaram US$ 26,7 bilhões, aumento de 9,4 %.

O déficit na conta de serviços chegou a US$ 5,3 bilhões, impulsionado por aumentos expressivos nas despesas de:

  • Transporte (28,3 %);
  • Propriedade intelectual (52,4 %);
  • Telecomunicação, computação e informação (128,2 %);
  • Aluguel de equipamentos (6,6 %).

Reservas internacionais e fluxos de investimento

As reservas internacionais totalizaram US$ 372,6 bilhões em agosto de 2026, um acréscimo de US$ 2,9 bilhões em relação ao mês anterior. O aumento decorreu principalmente das variações positivas de paridades (US$ 2,7 bilhões) e da receita de juros (US$ 900 milhões). As vendas no mercado à vista reduziram as reservas em US$ 1 bilhão.

Nos mesmos 12 meses, os investimentos diretos no país registraram ingressos líquidos de US$ 86,6 bilhões, com fluxos de participação no capital de US$ 9,3 bilhões e lucros reinvestidos de US$ 5,7 bilhões. As saídas líquidas de investimentos em carteira foram de US$ 5,2 bilhões.

Análise de especialistas

Analistas consultados pelo Estadão consideram improvável que a dívida externa líquida ultrapasse US$ 70 bilhões, nível observado há duas décadas, mas admitem a possibilidade de chegar a US$ 30 bilhões nos próximos dois anos. Felipe Tavares alertou que a perda da posição de credor líquido reduz a margem de manobra do país para absorver choques externos sem recorrer a intervenções cambiais ou pressão sobre os prêmios de risco soberano.

Implicações para a economia

A reversão da condição de credor a devedor externo indica menor folga para enfrentar eventuais desequilíbrios na conta corrente. Caso o déficit em transações correntes continue elevado, o país pode enfrentar vulnerabilidades no balanço de pagamentos, exigindo atenção de agências de classificação de risco e investidores estrangeiros.

"A perda dessa almofada líquida reduz a margem de manobra para absorver choques prolongados sem repasse cambial ou pressão sobre os prêmios de risco soberano", completou Tavares.

O debate sobre a sustentabilidade da dívida externa deverá permanecer em foco nas discussões econômicas e nos próximos relatórios do Banco Central.